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:: Quinta-feira, Outubro 12, 2006
::
INICIO DAS AULAS, JOVENS MENINAS
WANDERLINO ARRUDA
Início das aulas, tempo-menina,
jovens meninas,
lindas e descontraídas, alegres,
muito alegres,
bem cedo a caminho da escola.
Março e agosto, meses de muitas cores :
saias azuis, blusas mais que modernas,
bonito alvorecer, caminhar de sonhos,
sorrisos de muitos encantos.
Início das aulas, tempo de faceirice,
rodízios de mocinhas em flor,
muitos enleios, muitos...
Múltiplas cores, doces brisas,
um sempre início, leda caminhada:
livros, mochilas, lenços de seda,
muita esperança,
infinita esperança!
LOGOS BRASIL
PROMENADE 33
MONTES CLAROS MG
EBOOK WANDER
ACADEMIA 11
GOLD DEMOCRACY
TEMPO BRASIL
ELOS MG
ROTARY NORTE
:: DENILSON REGO ARRUDA 11:04 AM
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:: Quarta-feira, Outubro 11, 2006
::
FELICIDADE
WANDERLINO ARRUDA
Felicidade não tem peso,
nem tem medida,
não pode ser comprada,
não se empresta, não se toma emprestada.
Só pode ser legítima.
Felicidade falsa não é felicidade, é ilusão.
Mas, se eu soubesse fazer contas na medida do bem,
diria que a felicidade pode ter tamanho,
pode ser grande, pequena,
cabendo nas conchas da mão,
ou ser do tamanhão do mundo.
Felicidade é sabedoria, esperança,
vontade de ir, vontade de ficar,
presente, passado, futuro.
Felicidade é confiança:
fé e crença,trabalho e ação.
Não se pode ter pressa de ser feliz,
porque a felicidade vem devagarinho,
como quem não quer nada.
Ser feliz não depende de dinheiro,
não depende de saúde,
nem de poder.
Felicidade não é fruto da ostentação,
nem do luxo.
Felicidade é desprendimento,
não é ambição.
Só é feliz quem sabe suportar, perder,
sofrer e perdoar.
Só é feliz quem sabe, sobretudo, amar!
(Wanderlino Arruda)
TEMPO VIRTUAL
PORTAL DOIS
CHARME POEM
BRASIL POESIAS
MENSAGENS PARA LEMBRAR
PREDICADO
AVENTURA 100
PENSAMENTO 11
:: DENILSON REGO ARRUDA 4:27 PM
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A VOZ GOSTOSA VOZ DE PIAF
WANDERLINO ARRUDA
É preciso saber descobrir sempre o lado gostoso e nobre de cada momento de nossa vida. Buscar a felicidade é uma obrigação e a própria busca deve ser um motivo de ser feliz. É o que acontece comigo todas as vezes que entro no foyer do Teatro Nacional de Brasília, que desço a rampa aveludada e bonita e vejo aquela majestade de auditório, aquele conjunto monumental que só Niemeyer poderia imaginar e realizar. Ir ao Teatro Nacional de Brasília me oferece um gratificante prazer, um bom motivo de alegria. Foi assim a sensação que tive quando Dagmar, Anderson e eu toma¬mos o primeiro contato com a nossa turma, antes e durante a apresentação de Bibi Ferreira, na peça Piaf, um sonho de interpretação. Foi assim quando nos sentamos, bem em frente, ao palco, num bom grupo composto por lasbek, Riza, Carlos Hetch, e Carmen, vendo do outro lado bons colegas de trabalho, tendo como desta¬que
em mais de meio auditório o charme de Ângela Momm.Curioso que tenha prevalecido em grande parte a cor vermelha, um vermelho forte, vivo, flamejante. Entre nós, e muito feliz, de vestido, bolsa e sapatos vermelhos, a Ivone. iria, mais feliz ainda, com um rosa choque que,
à luz da noite, ninguém diria que não era vermelho. Valquíria, Daniel,
Eduardo, Roberto, Cardenas, todos de camisas vermelhas. O Carlos, não sei se menos ou mais, também com vários detalhes de vermelho. Quando acende a iluminação do palco, o fundo espouca em vermelhidão intensa, vivíssima como um campo de luta, formando conjunto com o foco avermelhado que iluminou Bibi durante todo o tempo. Em contraste, como num romance francês, o negro das roupas do luxo e da pobreza que, de início, apavoram a consciência e a visão do espectador. Para com¬por, de nosso lado, a negritude da camisa do muito mineiro Moacir. De lá e de cá sempre o negro e o vermelho.A voz de Bibi Ferreira, a presença, os gestos, o pessimismo, o lado difícil da vida que ela faz explodir a todo instante, o minúsculo físico sem nenhum traço de beleza, tudo marca a alma de Edite Piaf. É Piaf purinha com a visão de contemporaneidade, é realmente como se estivéssemos em presença dela. Aliás, mais do que isso: as duas, se parecem, quase uma mesma pessoa, todas duas famosas, marcadas visivelmente pela muita idade, com desgaste que a própria vida artística impõe e provoca. A voz, a principio, miudinha, pedindo desculpas por existir, de repente enche e preenche o ambiente e vai tomando volume, ganhando corpo, envolvendo, límpida, num crescendo admirável como se representasse toda a força da sonoridade da eterna França. É como se estivesse no espírito dos cabarés de Paris, no Olímpia, o máxi¬mo da glória
de toda a arte, muito mais do que o Carnegie Hall ou qualquer outro teatro do mundo, inclusive o Nacional de Brasília, em que estamos presentes. Ouço e vejo Piaf e me transporto numa doce saudade para as ruas parisienses, as praças, os monumentos, os «boulevards", os museus. Sinto no acordeom, na harmonia do fundo musical, e atmosfera de cultura, do gosto de sensibilidade que os franceses sabem cultivar com tanto amor. Vejo me no alto da Torre Eiffel, no Arco do Triunfo, na Place de la Concorde" na Pigale, no Sena, dentro de um bateau mouche, na Nôtre Dame, nos teatros de revistas, no Louvre, no meu modesto hotel de viajante solitário e muito feliz. Vejo-me correndo do frio, embevecido com o colorido das luzes, cias bancas de jornais e revistas, das bancas de frutas vermelhinhas, com os brilhos dos restaurantes e cafés, ah ! os cafés! Vejo me envolvido com a alegria das crianças e a beleza magra das mulheres, com a diversidade de tipos, com as
roupas que estrangeiros e franceses desfilam nos passeios e jardins.
Sonho e vejo!E depois de tudo, emocionado, agradeço à arte de Bibi e a oportunidade de estar em Brasília. Nada melhor do que matar uma saudosa saudade!
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:: DENILSON REGO ARRUDA 4:25 PM
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PRIMEIROS PASSOS
WANDERLINO ARRUDA
Não sei bem porque, mas ser jornalista era um sonho que eu
acalentava há muito tempo, bem antes de ter-me mudado para Montes Claros, nos meus adolescentes dias de Taiobeiras, tempos de convívio com tudo que um ainda quase menino poderia sonhar. Escrever para jornais e revistas, naquela época já não me parecia uma coisa totalmente impossível, tinha cheiro de realidade, com boa marca de prazo por acontecer.
Na verdade, foi de lá o bom começo, nos meus primeiros exercícios de charadismo e de palavras cruzadas, quando não me limitava à passividade das decifrações, mas indo com determinação a bem mais do que isso: passei a compor charadas e a construir os primeiros desenhos e armar as primeiras batalhas de vocábulos e
siglas, encaminhando-os à Revista "Libertas", que a Polícia Militar
publicava em Belo Horizonte e à "Revista da Marinha", que o Ministério da Marinha editava no Rio de Janeiro. Era uma experiência e tanto, uma grande alegria ao ver textos e nome publicados em letras de imprensa. Aníbal Rego, amigo e companheiros de estudos, um dos melhores professores que já tive, muito me incentivou, procurando valorizar meus primeiros passos nesse tipo de atividade na imprensa. Desenhar a nanquim eu sabia de alguma forma, o que eu não sabia era datilografar, que era coisa difícil em cidade de interior. Foi aí que Ageu Almeida, outro amigo, nas horas de folga da farmácia, me deu grande ajuda, ensinando-me, corrigindo e, mesmo, passando a limpo minhas primeiras produções. Foi uma boa escola, coisa de jamais me esquecer.
Depois, vendo meu esforço, meu interesse, meu pai comprou uma
máquina de escrever e um método simplificado de datilografia. Foi para mim, não tenho dúvida, uma fase de encantamento e alegria. Ainda me lembro de tudo como se fosse hoje: coloquei máquina e livro em cima da canastra de madeira e couro, que havia no meu quarto, bem em frente à janela para aproveitar a claridade, e passei a gastar nos exercícios resmas inteiras de papel almaço, batendo e rebatendo as quatro carreiras de teclas - dedos das duas mãos - até adquirir razoável destreza para escrever bilhetes, cartas e pequenos relatos de acontecimentos de cada dia.
Foi assim que ¿ quase datilógrafo - cheguei a Montes Claros, em
janeiro de 1951, já com meio caminho andado para trabalhar em jornal. Quando o prefeito Enéas Mineiro e médico Luiz Pires fundaram ¿O Jornal de Montes Claros¿, alvoroçado, vi abrirem para mim as portas de uma nova profissão, sentindo mesmo que o grande sonho poderia transformar-se em realidade. Nada, porém, aconteceu, porque o excesso de trabalho no comércio, as tarefas no Colégio Diocesano, a leitura de pelo menos um livro por semana, as cartas para a namorada, tudo, tudo não deixava tempo para o futuro jornalista. Na faixa dos sonhos quase reais, num querer muito, acompanhei, mais do que interessado, a primeira fase do jornal, principalmente as polêmicas entre professor Pedro Sant¿Ana e o jovem médico João Valle Maurício.
Depois veio a política estudantil no grêmio do Instituto Norte
Mineiro, com eleições perdidas e eleições ganhas, liderança construída
quase a ferro e fogo. Foi também nesse tempo que recebi de Waldir Senna a presidência do Diretório dos Estudantes, numa velha sala da rua Doutor Santos, em frente ao Hotel São José. E daí, para quem vinha de tão longe na vida estudar de favor, o novo cargo era um brilho súbito, uma quase consagração, nome diariamente no rádio e pelo menos duas vezes por semana nos jornais. Deve ter sido por isso que o professor José Márcio de Aguiar, que não era tão meu amigo como o era de Haroldo Lívio, resolveu atender o pedido de Oswaldo Antunes e me mandar para o JMC. Antes, recomendou-me o máximo de respeito à gramática, cuidados no contato com o público, e mais do que isso: nunca esperar do jornalismo a riqueza de saldos bancários, porque
jornalismo teria que ser sempre um sacerdócio, ou mais do que isso.
Trabalhei três meses sem ver cor de dinheiro, tudo completamente
de graça e até com alguma despesa saída do meu próprio bolso. Depois,
Oswaldo destinou ao jovem e apressado repórter o diminuto salário de mil cruzeiros, sominha que nem dava para pagar um mês inteiro à pensão de D. Duca.
Um bom começo. Claro, um bom começo!
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ALEGRIA DA NATUREZA
WANDERLINO ARRUDA
Foi num mês de fevereiro, trinta e dois anos depois, que vol¬tei a rever a
minha terra, São João do Paraíso. Foi bem naquele fe¬vereiro brabo de tantas enchentes, estradas intransitáveis, com um mundão de dificuldades para chegar lá, partindo de Taiobeiras. Foi depois de longa viagem por Valença e Nazaré, por Itaparica e Salva¬dor, andanças de muito laudar pelo céu e pelo mar. Em São João, entramos num dia de intensa luz, depois das chuvas. E comigo es¬tavam Olímpia, Rízzia e Gracielle, ao mesmo tempo que bons ami¬gos como Joaquim da Caixa Econômica, Mário Português e meus cunhados Anderson e Nelmy, todos para dar maior prestígio ao fi¬lho que voltava à casa. Nas ruas, o Lauro, colega de curso primário, fazia a surpresa com muitas faixas de saudação, tudo muito grato, bom demais para os olhos e para a alma.
Visitas, encontros, apresentações, um rememorar de sauda¬des, o reviver de velhas e bem guardadas lembranças, uma alegria aqui, uma decepção ali, porque nem tudo que o coração registra fi¬ca imune à ação do tempo. Jovens transformados em velhos, velhos já não em vida. A paisagem já não a mesma e, ainda que melhorada pelo progresso, diferente. Não mais a ponte dos banhos de meni¬nos pelados e jovens lavadeiras; não mais o canavial sem fim; não mais a serra verde escura ligada às nuvens; não mais a igrejinha do alto do morro, nova em folha; a grama da praça, substituída por pavimentação e postos de gasolina; o matagal do cemitério já bair¬ro novo, tudo mudado. Os olhos procuram, o coração deplora to¬da a ausência de eternidade nas coisas e nas pessoas! Quanta falta!
A noite, o lançamento do meu livro, na Matriz, o louvor dos discursos, as
explicações, os abraços, o rolar de tranqüilas lágrimas de gratidão ao
passado, a riqueza das lembranças boas que só a infância pode dar, o olhar reverente de jovens professoras ao camara¬da mais velho, amadurecido pelas duras dores da vida. Olímpia me per¬gunta baixinho o que me passa pela cabeça, enquanto olho a velha igreja, ouço o antigo sino, sinto saudades da paisagem pisada por pés descal¬ços em tempo distante. O que responder ? As coisas que passam pe¬lo sentimento não podem ser analisadas, não são lógicas. As ima¬gens são superpostas, principalmente as do meu pai, ainda novo, do meu avô Vicente, de longas barbas brancas, e da tia Raquel e de D. Adelina, minha professora gorda e clara.
Vem o segundo dia e, enquanto dia, uma viagem pelo Mato Cipó para visitar os tios Júlio e Diolina, a passagem pela Lagoa da Viada, pelo rio, pelos mangueiros, a procura de velhas estradas por onde costumava passar, indo para a casa de Maria de Silvina, o ca¬minho da fazenda do doutor Osório. A cada lembrança, agora o clique de uma foto¬grafia, a promessa intima de pintar um quadro. Na volta, à noite, depois do jantar, a palestra na Escola, uma espécie de acerto de contas, um desfiar de vivos sonhos, um voto de confiança e um in¬centivo às novas gerações. Mais tarde, o passeio pelas ruas, o min¬gau de milho na sala de jantar de D. Benzinha, o café com biscoi¬tos a convite do padre João, madeirense culto, amigo solicito.
Foi durante o café, sentados em duros bancos, braços sobre uma mesa comprida sem toalha, daquelas feitas com madeira for¬nida, que resolvi fazer um comentário sobre meu primeiro profes¬sor, o velho Joaquim Rolla, mestre de régua e palmatória, de lousa e tabuada, de norma e abecê. Falei da escola, falei dos colegas, des¬crevi os objetos. Quando ia mostrar que me lembrava também dos móveis, Cristovina, a anfitriã, sorriu maliciosa e, com brilho no olhar, me fez arrancar de dentro a mais querida das lembranças, pois aquela mesa, aqueles bancos, todo aquele ambiente era a mi¬nha primeira sala de aula. Havia eu, por acaso, me esquecido de que ela era a filha do professor? Estava ali o maior presente ao meu coração. . .
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ALEGRIA DA NATUREZA
WANDERLINO ARRUDA
Foi num mês de fevereiro, trinta e dois anos depois, que vol¬tei a rever a
minha terra, São João do Paraíso. Foi bem naquele fe¬vereiro brabo de tantas enchentes, estradas intransitáveis, com um mundão de dificuldades para chegar lá, partindo de Taiobeiras. Foi depois de longa viagem por Valença e Nazaré, por Itaparica e Salva¬dor, andanças de muito laudar pelo céu e pelo mar. Em São João, entramos num dia de intensa luz, depois das chuvas. E comigo es¬tavam Olímpia, Rízzia e Gracielle, ao mesmo tempo que bons ami¬gos como Joaquim da Caixa Econômica, Mário Português e meus cunhados Anderson e Nelmy, todos para dar maior prestígio ao fi¬lho que voltava à casa. Nas ruas, o Lauro, colega de curso primário, fazia a surpresa com muitas faixas de saudação, tudo muito grato, bom demais para os olhos e para a alma.
Visitas, encontros, apresentações, um rememorar de sauda¬des, o reviver de velhas e bem guardadas lembranças, uma alegria aqui, uma decepção ali, porque nem tudo que o coração registra fi¬ca imune à ação do tempo. Jovens transformados em velhos, velhos já não em vida. A paisagem já não a mesma e, ainda que melhorada pelo progresso, diferente. Não mais a ponte dos banhos de meni¬nos pelados e jovens lavadeiras; não mais o canavial sem fim; não mais a serra verde escura ligada às nuvens; não mais a igrejinha do alto do morro, nova em folha; a grama da praça, substituída por pavimentação e postos de gasolina; o matagal do cemitério já bair¬ro novo, tudo mudado. Os olhos procuram, o coração deplora to¬da a ausência de eternidade nas coisas e nas pessoas! Quanta falta!
A noite, o lançamento do meu livro, na Matriz, o louvor dos discursos, as
explicações, os abraços, o rolar de tranqüilas lágrimas de gratidão ao
passado, a riqueza das lembranças boas que só a infância pode dar, o olhar reverente de jovens professoras ao camara¬da mais velho, amadurecido pelas duras dores da vida. Olímpia me per¬gunta baixinho o que me passa pela cabeça, enquanto olho a velha igreja, ouço o antigo sino, sinto saudades da paisagem pisada por pés descal¬ços em tempo distante. O que responder ? As coisas que passam pe¬lo sentimento não podem ser analisadas, não são lógicas. As ima¬gens são superpostas, principalmente as do meu pai, ainda novo, do meu avô Vicente, de longas barbas brancas, e da tia Raquel e de D. Adelina, minha professora gorda e clara.
Vem o segundo dia e, enquanto dia, uma viagem pelo Mato Cipó para visitar os tios Júlio e Diolina, a passagem pela Lagoa da Viada, pelo rio, pelos mangueiros, a procura de velhas estradas por onde costumava passar, indo para a casa de Maria de Silvina, o ca¬minho da fazenda do doutor Osório. A cada lembrança, agora o clique de uma foto¬grafia, a promessa intima de pintar um quadro. Na volta, à noite, depois do jantar, a palestra na Escola, uma espécie de acerto de contas, um desfiar de vivos sonhos, um voto de confiança e um in¬centivo às novas gerações. Mais tarde, o passeio pelas ruas, o min¬gau de milho na sala de jantar de D. Benzinha, o café com biscoi¬tos a convite do padre João, madeirense culto, amigo solicito.
Foi durante o café, sentados em duros bancos, braços sobre uma mesa comprida sem toalha, daquelas feitas com madeira for¬nida, que resolvi fazer um comentário sobre meu primeiro profes¬sor, o velho Joaquim Rolla, mestre de régua e palmatória, de lousa e tabuada, de norma e abecê. Falei da escola, falei dos colegas, des¬crevi os objetos. Quando ia mostrar que me lembrava também dos móveis, Cristovina, a anfitriã, sorriu maliciosa e, com brilho no olhar, me fez arrancar de dentro a mais querida das lembranças, pois aquela mesa, aqueles bancos, todo aquele ambiente era a mi¬nha primeira sala de aula. Havia eu, por acaso, me esquecido de que ela era a filha do professor? Estava ali o maior presente ao meu coração. . .
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O MULO DARCY RIBEIRO
WANDERLINO ARRUDA
O lançamento do segundo romance de Darcy Ribeiro-"O MULO"- na Academia Montesclarense de Letras, numa descontraída noite de quinta-feira de dezembro, foi um reencontro de alegria e de contrastes, com um amado e temido filho da terra a derramar nos ouvidos o mel e o fel de santas heresias e virtudes. Ora terno, doente de romantismo, saudoso filho de dona Fininha Silveira, ora demolidor, prenhe de força belicosa, irmão de Mário Ribeiro, ora compulsivamente criativo, primo espiritual de Konstantin Christoff. É que Darcy Ribeiro nasceu pouco adaptado ao modo e ao jeito dos mineiros, nunca afeito ao silêncio, ao retraimento, mas, ao contrário, incomodo para inteligências e sentimentos preguiçosos, bisturi ou látego auto-conduzido e sempre a si mesmo proclamado.
Ao contrário de Ciro dos Anjos, outro montes-clarense famoso no mundo das Letras, este sereno, machadiano, universalista, acomodado como um velho funcionário público, a curtir um silêncio invisível, Darcy Ribeiro é e afigura-se agitado, fogoso, tropicalmente brasileiro, aquecido de alma e corpo, de lufa e de luta, instintivo, felino como um condor. De inteligência selvagem, incontida, Darcy raciocina como uma ventania de amor a tudo que é cultura. Curtido primitivamente no sol e no solo do sertão de Montes Claros, fruto teórico de ternura
e de instinto, de voluptuosa ambição de mundo. Darcy é um caldeirão efervescente de idéias como a querer viver em uma só vida todas as vidas. Mortal, tem pretensões de imortalidade e imortal se fez pelos feitos multifeitos.
Bem brasileiro, latinamente apaixonado, traz na alma o Mulo Darcy retalhos de peles de todas as cores: a cor do índio, a cor do negro, lembranças atávicas do misticismo dos celtas, aguerrida força de velhos godos, gosto de mando da alma ibérica, uma noção tão grande de espaço e de glória que só navegadores fenícios poderiam ter impregnado o sangue de marinheiros do velho Portugal. Tem mais: Darcy é lúbrico como um cristão novo, fogoso como um nômade cavaleiro árabe. Na verdade, é um homem com a alma da raça, e não só da portuguesa, da índia e da africana, misturadas no cadinho brasileiro. E da raça humana, pois portador de muitas virtudes e de muitos defeitos, um caldo bem temperado de semens jorrados do chuveiro eterno, não sei porque nascido em Montes Claros.
O MULO é esta cidade sedenta de força humanamente parceira de Deus na distribuição da vida e da morte; divinamente sequiosa na busca de amor, criadoramente envolvente na caça do mando e do poder. Sensual, oportunista, material, religiosamente mística, faminta da novidade, sonhadora de futuro. O MULO é um pedaço de cada criatura que viva ébria da própria terra natal, homem ou mulher. O MULO tem muito de João Valle Maurício na palavra e na sutileza, muito de Konstantin no arregalo da anatomia, no desenhar das forças; muito de Crispim da Rocha no faro do homem do mato, forte e inteligente; muito de Filomeno na sede do ter e do governar; muito de Plínio Ribeiro, no misticismo, no gosto do idear, no ser e não ser da vida. O MULO é Darcy e é Mário Ribeiro, inconseqüentes e perseverantes, sempre determinados.
O MULO, centro de uma bem romanceada trama de Realismo e Naturalismo, barroco talvez pelos contrastes, hereditariamente marcado pelo destino, fruto do amor e do desamor, sem peias, sem origem e sem destino produto da terra e da carne, somos-isso é verdade-todos nós, pequenas grandiosas criaturas no sofrer e no gozar.
E que Deus nos perdoe-Amém.
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RUAS DE LISBOA
WANDERLINO ARRUDA
Não creio que exista outra cidade no mundo com ruas de nomes mais engraçados do que as de Lisboa. Parece que os portugueses que viveram mais perto de El-rei tinham mais aguçada a imaginação, eram mais românticos ou, então, queriam uma notoriedade pelo lado alegre da vida. Os lisboetas, lisbonenses ou ulissiponenses, conforme o grau de erudição, ou simplesmente alfacinhas, conforme o grau de intimidade, foram sempre uma gente bem disposta, cheia de vida, vaidosa por sua cidade. Chamam Roma de cidade eterna, mas eu acho que Lisboa é que é cidade de nunca se esquecer. Ninguém passa pela capital portuguesa como um simples passageiro. Lisboa é terra para uma saudade de vida inteira, finda, aconchegante, educada, cheia de cultura, inteligência e arte em cada rua, cada beco, nos largos, nas praças, nas ladeiras, nos terreiros em vielas ou avenidas, no morro do Castelo ou na beira do Tejo!
Eterna menina moça, noiva e namorada, Lisboa tem a mágica de uma lembrança de muitos séculos de história, o encanto das descrições literárias de Eça, de Herculano, de Castilho e até do nosso saudoso David Nasser, que tanto amou o que ele chamava de "Portugal, meu avôzinho". se Lisboa fosse brasileira, poderíamos dizê-la um doce-de-coco, cujo tempero de cravo e canela parece chegar mais ao nosso coração! E se o visitante tem mesmo muito amor, como 6 sentimental descobri-la, percorrê-la de ponta a ponta, vivê-la com carinho e sofreguidão! Apaixonada como Lisboa, talvez sã a nossa Salvador, cidade de todos os santos. Bonita, é possível que sã o Rio de Janeiro. Aconchegante, quem sabe só Fortaleza ou Maceió! Lisboa muito tem de Manaus, de Porto Alegre, de Belo Horizonte, de Curitiba! Faceira, movimentada, antiga e moderna ao mesmo tempo!
O gostoso é que Lisboa nunca perde seu encanto, com velhos elevadores, velhas igrejas, o casario de telhados vermelhos em Al¬fama, a beira do Tejo, rio mar com brancas gaivotas, a historia viva nas paredes de pedras do romano castelo de São João, o Rossio, o Chiado, o bondinho valente da Graça, as cegonhas do Sete Rios, os vendedores de rua, as raparigas de chales negros, as feireiras de salto alto e vistosos brincos de ouro, o Bairro Alto, o som do fado! Encanto em todos os cantos!
Mas o mais gostoso em Lisboa são os nomes das ruas ou de todos os lugares por onde passam as gentes, por onde a gente passa. Ninguém pode deles esquecer: Beco da Amorosa, Largo das Garridas, Poço dos Negros, Pátio do Albergue das Crianças Abandonadas, A Calçadinha de São Miguel, Beco do Pocinho, Rua das Escolas Gerais, Rua da Fresca, Rua da Bempostinha, Quinta do Espião, Pátio do Joaquim Polícia, Pátio das Malucas, Travessa do Pinto, Quinta da Argolinha, Rua da Horta Nova, Travessa do Vintém das Escolas, Pátio do Ferro de Engomar, Travessa do Pau-de¬ferro, Azinhaga da Bruxa... Tudo um amor!
Tem mais, tem muito mais: Pátio da Fartura, Rua da Cozinha Econômica, Rua da Horta das Tripas, Rua Joaquim Leiteiro, Bairro das Galinheiras, Beco da Bicha, Largo do Chafariz de Dentro, Beco do Pocinho, Rua do Benformoso, Vila do Penteado, Rua do Alfredo Pimenta, Largo da Bomba, Beco dos Surradores, Travessia da Zebra, Vila do Cabaço, Rua do Saco, Travessa da Rabicha, Rua da Buraca, Rua dos Bons Dias, Pátio da Mariana Vapor. Cinco são as ruas chamadas Direita, uma rua chamada Esquerda, Rua da Pátria, Rua do Ouro, Terreiro do Paço Quanta fartura de ruas com nomes de santos, só de Santo Antônio, quase cinqüenta!
Existem até a Travessa dos Prazeres, a Rua da Triste Feia e a Praça da Alegria! Não sei quando, mas ainda vou vê-las de novo!
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DENILSON ARRUDA
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ELOS CLUBE DE M ONTES CLAROS
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BANHO, MANIA DE BRASILEIRO
WANDERLINO ARRUDA
O Padre Aderbal Murta conta que o reitor da Universidade de Louvain, na Bélgica, não ficou nada satisfeito quando os seminaristas brasileiros, que iam chegando por lá, começaram a pedir um banheiro, um pequeno cômodo no grande conjunto de edifícios, algo que eles consideravam necessário e muito importante. Isso mesmo, um banheiro, um local onde se lavar de pé e cabeça, receber água vindo de cima, passar sabonete, enxaguar o corpo, enxugar, depois, com toalha felpuda. Não o banho de bacia, de sopapo, como diria o meu amigo Nô Barrão. Banho mesmo, de chuveiro, com água morna, não pelando, nem fria, que ninguém é de ferro. Essa exigência, disseram os administradores, era coisa de estudante subdesenvolvido, tinha que vir de brasileiros, sujeitinhos metidos a besta! Banho na Bélgica, até então, era banho de luva, de esponja, apenas esfregando, sem correr água, sem molhar o chão. . .
Pois bem! Agora, leio na revista BRASIL ROTARIO interessante comentário de Derli Antônio Bernardi, de Maringá, dizendo de quando tomar banho era pecado e dava até cadeia. Quanta curiosidade! Tinham perdido a sabedoria árabe, segundo a qual "a água e o mais eficiente de todos os remédios e o melhor de todos os cosméticos". Tinham perdido a experiência egípcia de quando se tomava banho em tinas de ouro, e, da Grécia, quando o palácio do Rei Minos possuía a mais espetacular banheira da antigüidade, decorada com mármore e pedras preciosas. Tinham se esquecido da tradição banhista de Roma, quando os banheiros eram tão grã-finos que havia vinte e cinco qualidades diferentes de banhos ¿ com óleos, vapores, ervas, essências, etc. ¿ e havia ao lado deles galerias de arte, teatros e templos dedicados aos deuses.
Os bárbaros, quando invadiram a Europa, pobres coitados, culparam os banhos coletivos pela decadência romana. Aproveita- ram a guerra e destruíram todos os banheiros públicos e particulares, varrendo, por quase mil anos, o higiênico e gostoso costume, fazendo praticamente desaparecer a palavra banho. O tempo corre, não para, e, na Idade Média, os livros de etiqueta recomendam apenas lavar as mãos antes das refeições, o que não é de se admirar, porque naquele tempo ainda não havia talheres, era tudo na base do capitão.
Coisa estranha, a Rainha Isabel de Castella não fazia segredo de quantos banhos havia tomado durante toda a sua vida: apenas dois, um ao nascer e outro ao se casar, para ficar cheirosa para o real consorte, no primeiro dia de lua-de-mel. Por mais incrível que pareça, também a religião contribuiu grandemente para o declínio da popularidade do hábito de banhar. São Gregório proibiu os banhos aos sábados "principalmente se a finalidade fosse higiênica". Houve até uma lei permitindo o banho apenas às terças-feiras. Banhar-se era pecado, luxúria, um gosto muito mundano, um zelo excessivo com o corpo, ora pois!
Foi em torno do ano de 1800 que, na Inglaterra, apareceu uma casa de banho à moda turca, com freqüência permitida apenas para homens e cortesãs, hermeticamente fechada às mulheres de família, porque indigna da gente seria do belo sexo. Na França, ao tempo de Napoleão, houve maior liberalidade e até apareceu uma nova profissão, a dos banhadores, que saíam, de casa em casa, carregando tinas para lavar a suja nobreza. Na América colonial, os puritanos consideravam banhos e sabonetes coisas impuras, chegando ao ponto de, na Filadélfia, quem tomasse mais de um banho por mês, tinha de ser condenado à cadeia por desrespeito aos bons costumes. A primeira casa de banhos publica de Nova York veio aparecer em 1852, mas só regulamentada por comissão especial em 1913.
Banho farto, diário, de mais de uma vez por dia é mesmo coisa de brasileiro. E não e devidamente por dois terços da nossa raça, a africana e a portuguesa, que também não era lá de muita água. Devemos a tradição aos ancestrais do sangue tupi e guarani, nossos índios que apreciavam e muito as brincadeiras e os mergulhos nos rios e nas praias, principalmente nos dias de maior calor, pois divertimento maior não poderia haver! Como disse: banho, mania de brasileiro...
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O DIA EM QUE CHIQUINHO SUMIU
WANDERLINO ARRUDA
No dia de novembro em que Chiquinho sumiu eu não estava em Brasília. Viajara semanas antes e nem vira o bichinho nem na chegada nem na saída numa permanência de muito tempo. Hospedado no St. Paul Hotel, nem uma vez fui à Setecentos e Três Sul, não sei se por comodismo ou ingratidão, embora lá estivessem muitos dos meus colegas e amigos e também o Chiquinho. Foi uma pena. Agora que o Chiquinho desapareceu é que eu vejo a perda, a dor de uma ausência mesmo não deliberada. Perto de lá, passei apenas duas vezes: uma à noite, indo à casa do Nelson Pereira de Souza, presidente brasileiro do Esperanto, e outra, numa manhã de domingo, num passeio circular pela cidade para uma visita à Walkíria e Nabiran. Mas à casa da Concessa e do Chiquinho, eu não fui.
Soube do sumiço do Chiquinho por notícia do colega Geraldo Eustáquio, que lá ficou hospedado durante um mês por sugestão minha. Ele contou-me do choro da Concessa, da angústia dos hóspedes, da tristeza da Neide, da sensação de perda de todos, na hora do café, na hora do jantar, e, principalmente, na hora da televisão, quando era mais firme a lembrança do Chiquinho deitado na almofada de fina seda, entusiasmado com os programas da Globo da viúva Porcina. Eustáquio contou-me ainda que a Concessa ficou intolerável, nervosa, cheia de queixume, longe da gentileza normal de que ela é a maior portadora do mundo. Acabou até a alegria da casa e houve até reclamação!
Também triste, mesmo longo do epicentro da tragédia, não agüento ficar sozinho com a notícia, e telefono incontinenti para o Recife e falo do acontecimento com o meu grande amigo Tiago Marcos, ainda mais amigo da Concessa do que eu, pois quase conterrâneo, ela do Rio Grande do Norte, ele de Jaboatão, em Pernambuco. Tiago diz-me que nem pode acreditar, deve haver um engano, o Chiquinho deve estar esperando a hora de voltar! Falo-lhe do desespero da Concessa, de que fui informado, e ele me promete que logo estaremos em Brasília para ajudar a amiga. Se eu quiser, posso até esperá-lo no Aeroporto, no domingo dia 4 de janeiro, à tardinha. Vamos chegar juntos à 703, Bloco J, como já fizemos de outras vezes em que trabalhamos em tarefas de treinamento de colegas do Banco do Brasil. Tiago sempre foi um dos maiores admiradores de Chiquinho, e com ele sabia até conversar...
Quando telefono para Concessa para confirmar a reserva do apartamento em que vou ficar, e apresentar os meus sentimentos pela ausência do Chiquinho, ela me diz que o Tiago já chamara para ele e dera conta dos dois recados, para ele a para mim. A presença telefônica dos dois amigos, parece, minorara um pouco o seu sofrimento e só Deus sabe quanto é importante a solidariedade! Narrou todos os acontecimentos, dizendo que, no dia do desaparecimento do Chiquinho, ela e muita gene vasculharam com malha fina nada menos de nove quadras, da novecentos e três até a quinhentos e cinco. Mais fizera se não fora para tão longo amor tão curto o dia!
Não vejo a hora de telefonar para dar a notícia ao Jorge, ao Kalunga e ao Moacir, no Rio Grande do Sul, à Ivone, à Mitsu, ao Hiroshi, em São Paulo; ao Geraldo, em Teófilo Otôni, e, quem sabe, a mais alguém neste grande Brasil que do Chiquinho sempre gostara.
Esqueci-me de dizer, minha senhora, que Chiquinho é o gato mais querido da Concessa!
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O CÉU PODIA ESPERAR...
WANDERLINO ARRUDA
Minha amiga e colega Vera Lúcia Lopes Silva, esposa do filósofo Antônio Joaquim, certa vez me disse que eu sempre escrevo de forma a ser personagem também da história. Que sempre dou um jeito de penetrar pessalmente nos acontecimentos. D. Vera mão me fez essa observação como censura, e afirmou achar apenas um lado curiosos de colocar as idéias no papel, apresentando-me com certo envolvimento, assim como acontece com as mulheres num caso de amor. É certo que não tenho defesa e, mais uma vez, venho dar provas de que não consigo escrever, um noticiador de fatos, um redator objetivo, isento. Subjetivista, envolvo-me realmente e com isso me dou por feliz. A conversa explicada tem uma razão. Ainda agora, vou contar uma história bem conhecida de todos, porque noticiada para meio mundo e para o mundo inteiro, que é o de Tancredo, neste dias de sua morte em São Paulo, com passagem por muitas terras deste triângulo com Brasília e Minas Gerais. A televisão, as rádios, os jornais e as revistas nunca estiveram tão ricos de acontecimentos e imagens, de conceitos e opiniões, de tristezas e lamentações. O prazo longo da doença do presidente permitiu organizar tudo, dar toques de perfeição e oportunidade, um trabalho de divulgação digno de louvor até para a imprensa do nosso interior, mais afastada, mas não menos bem informada. Em Brasília, mergulhado como nunca nos livros, apostilas, anotações, transparências de retroprojeção, vídeos, planos de aulas, num curso de administração bancária, de uma hora para outra, na noite de domingo, com um grupo de colegas de várias regiões deste Brasil, sentimos a necessidade de uma parada par meditação e acompanhamento dos fatos ligados à morte do inesquecível presidente Tancredo. Se não foi surpresa para ninguém, a movimentação de notícias se tornou tão efetiva que não era possível deixar de participar. A ordem era ficar acordados até tarde do domingo, levantar na segunda, olhos e ouvidos ligados em São Paulo. Só às sete, a televisão informe do feriado nacional, mas mesmo assim seguimos para o trabalho, com vontade de cumprir metas sem atraso, tentativa de voltarmos - cada um para sua casa - no prazo previsto. A primeira emoção é a passagem pela igreja de Dom Bosco, nossa vizinha da quadra 703, um dos monumentos mais belos da arquitetura de Brasília, quando visto de dentro para fora, toda construída de concreto e vidros coloridos, com conjunto de vitrais de causar impacto no mais duro coração. E, na manhã de segunda, o saber de que foi ali o último lugar em que Tancredo pisou publicamente com os próprios pés, abalava qualquer sentimento brasileiro. A beleza do teto, a brancura do piso de mármore, os múltiplos tons de azul e violeta, o pesado candelabro de cristais, a sobriedade de estudo com apenas duas esculturas - do Cristo e do patrono - tudo marcava profundamente a nossa memória, lembrando Tancredo lá sentado ou ajoelhado, já com a dor espelhada na face, D. Risoleta toda cuidados, o povo sentindo a aurora de um novo tempo. Desde cedinho, o repicar dos sinos eletrônicos da D. Bosco ressuscitava os sons gostosos dos sinos mineiros de São João Del-Rei, Ouro Preto, Mariana, Sabará e Diamantina. Que coisa mais linda! O avião nem bem saíra de S. Paulo, já víamos gentes de todas as raças a caminhar par o aeroporto, par o Eixão, par a Esplanada, para as circunvizinhanças dos palácios, por toda e qualquer parte por onde poderia passar materialmente o grande presidente. Nada mais emocionava tanto como o verde-amarelo tarjado de preto de luto. Nada era mais patriótico do que as pequenas e grandes bandeiras - estas eram três - a servir de amparo do sol quente da capital da República. Velhos, crianças, senhoras, jovens em suas máquinas de velocidade, burocratas de paletó e gravata, cavalheiros de bermudas, parados, caminhando, correndo, um painel maravilhoso de saudades e reconhecimento a Tancredo. O que mais me emocionou, entretanto, foi um garoto mal vestido de aparência realmente humilde, cara de tristeza visível, que portava um cartaz de escrita rústica, traçada por quem aprendeu pouco na escola, mas muito na vida. Lá estava escrito: "ADEUS TANCREDO, MAS O CÉU PODIA ESPERAR"...
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O BAR GUARANI DE VADINHO
WANDERLINO ARRUDA
Elton Jackson ao me fazer um pedido para escrever sobre a Rua Doutor Santos, deixou-me na liberdade de voltar ao assunto quantas vezes forem necessárias, pelo menos até a hora em que eu chegar na esquina do Hotel São José, onde morei muito tempo. Na primeira crônica, com não podia de ser, procurei avivar todas as lembranças que marcaram a história recente do quarteirão do Hotel São Luiz, quando ficava de um lado o Bar de Manoel Cândido e, do outro lado, o Banco de Crédito Real, tudo muito próximo da área dos aflitos. Fui subindo, esquina por esquina e, agora, já estamos entre as ruas D. Pedro II e Dom João Pimenta, pedaço de mundo que me marcou profundamente, pois, ali passei alguns dos melhores momentos de minha vida de estudante e comerciário, de jovem repórter e de soldado do Tiro de Guerra, além das muitas atividades como radialista amador e como líder estudantil no Diretório dos Estudantes. Foi neste quarteirão que, de 1951 a 1954, morei nas pensões de D. Ismênia Porto e D. Duca Guimarães, levantando-me sempre pelas madrugadas para aprender as matérias das provas do Colégio Diocesano e do Instituto Norte Mineiro.
Era quase na esquina da Rua D. João Pimenta que ficava o Bar Guarani, um boteco alegre e bem freqüentado desde os dias de sua fundação, pelos idos de 1950. pequeno, de poucos metros quadrados, quase que de centímetros, tão curtas eram as dimensões pelo lado de dentro e pelo lado de fora. Quando passava de uns cinco fregueses, necessário era que alguns já ficassem de pé, no passeio, encostados ou não na parede velha e pintada de verde. Havia umas duas mesas pequenas e algumas cadeiras para o pessoal que gostava de jogar damas, tomando cerveja ou bebendo pinga.
Foi por volta de cinqüenta a cinqüenta e um que o Vadinho, Vadiolano Moreira, chegou a Montes Claros, um dos poucos rapazes de Taiobeiras que não veio para cá para estudar, mas, para ganhar dinheiro. Renato, Murilo, Nenzinho, Dedé, Valtinho, Alfredão, Tone, Quincas, eu, todos nós viemos para enfrentar a realidade e os sonhos dos livros. Vadinho não. Vadinho veio para trabalhar muito, trabalhar dia e noite, trabalhar o quanto fosse necessário para ficar rico, se possível muito rico. Foi assim que o Vadinho botou o olho no Bar Guarani, simpático, gostoso, e não teve dúvida, ali estava a primeira mina de sua vida montes-clarense.
Nunca conheci melhor comerciante que o Vadinho. Costumo dizer que, se ele instalar um boteco, um barzinho ou mesmo um restaurante encima de um pé-de-mandacaru, ainda assim teria constantes e eternos fregueses e amigos para todas as horas. É que ele vive cada momento, participa interessadamente de todos os assuntos, respeita reverente a alegria ou a tristeza de todos que dele se aproximam. Quando o Vadinho comprou o Bar Guarani, fez as primeiras mudanças, ampliou-o com mais um espaço lateral, foi como se uma luz nova iluminasse a paisagem e iniciasse um novo sistema vivencial para velhos e novos, pobres e ricos, principalmente para os que gostavam de futebol e de cervejas e batidas de limão. Por lá passavam obrigatoriamente os hóspedes e moradores de todos os hotéis e de todas as pensões do centro da cidade. Nenhum estudante que se prezasse poderia deixar de ir lá pelo menos aos sábados e domingos, antes ou depois do cinema. Uma coisa era muito importante: na hora do futebol no rádio, nos momentos dos gols, o Bar Guarani era o epicentro do mundo, o lugar mais barulhento da terra.
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NOMES DE RUAS
WANDERLINO ARRUDA
Ora, pois, nomes de ruas! O Haroldo Lívio, agora, trabalha como memorialista e escreve sobre nomes de ruas de Montes Claros. E, ainda por cima ressuscita áureos tempos políticos de Cândido Canela! Logo sobre assunto dos mais controvertidos da nossa equipe legislativa municipal, sem nenhuma dúvida, o mais elevado acervo de serviços da edilidade no campo da cultura histórica...
Haroldo começou como que não queria nada e, de modo muito direitinho, buscou fatos comprovados, pesquisou e redescobriu áureas iluminuras da lei e da autonomia popular, nos mais recônditos escaninhos de sua privilegiada memória. Foi até bom, porque nome de rua, que deveria ser sempre assunto sério, pois objeto da lei e da sanção, foi tratado de forma descontraída e açucarada. Uma espécie de doce néctar servido por ele e por Cândido a leitores amantes das amenidades.
É claro que o assunto, na realidade, nunca foi levado muito ao sabor dos grandes respeitos. Um ou outro projeto de lei, para dizer a verdade, muito poucos, tiveram o sagrado cunho da legítima homenagem ao valor histórico do homenageado. Dou meu testemunho, porque eu também, nos meus tempos de Câmara Municipal, cometi alguns projetos, cujas placas esmaltadas hoje são testemunhas em paredes várias; muitos dos nomes provam que o açodamento na atribuição legal nem sempre fizeram justiça ou tinham razão de ser, não passando às vezes de ressarcimento de dívidas eleitorais.
Das estórias mais engraçadas, nem todas foram praticadas no recinto da Edilidade, na ordem do dia anunciada solenemente pelo presidente dos vereadores. Algumas aconteceram nas sociedades de amigos dos bairros, outras em bate-papos de esquinas, algumas até em balcões de botecos depois de boas talagadas de pinga. Muitas placas de ruas formam imaginadas em sagrados recintos das melhores famílias, amadurecimento de frutos de tradição e da cultura, gestos de humana fraqueza da vaidade de uns tantos, principalmente dos portadores de nobres sobrenomes. Os casos mais graves, os da volúpia política ou da ânsia de homenagear parentes, estes todos sabem, não é preciso falar. De lado e de quebra, ficam ainda os de interesse comerciais de donos de loteamentos, mas a gente não tem nada com isso...
Quem tiver boa dose de curiosidade olhe o catálogo telefônico na parte dos endereços! Há casos incríveis, interessantes, gostosos, que só nós, os sonhadores, podemos entender, para quem co conheça realmente a cidade, é ainda melhor e mais gozado. Que miscelânea! Gentes, pedras, flores, elementos químicos, cidades, santos, religiões, um mundo genial. Gente viva, muito vida, gente que era vida e já morreu, gente que nunca conheceu Montes Claros ou dela ouviu falar! O mais interessante é que muitos nomes foram modificados pelos fazedores de placas, por puro erro ou a propósito de correção. Há nomes nas leis que não estão nas ruas e nomes nas ruas que não estão nas leis. Há ainda as adaptações populares, umas por amor verdadeiro, outras por simples analogia. Haroldo citou exemplos.
Cito, hoje, apenas o caso da Rua Monte Prano (com ¿r¿), no Bairro Santa Rita, pelo lado de lá dos trilhos da central. O projeto foi apresentado a pedido de um líder, o Rozendo, juntamente com várias outras denominações, entre elas a da Príncipe Regente, Presidente Castelo Branco, Monte Castelo. Todos estes nomes ficaram de acordo com a encomenda, mas o da Monte Prano falhou e, por isso, o dr. Raimundo Deusdará, até hoje quando me encontra, dá uma gozeira: diz ele que o dono da fábrica de placas achou que o vereador era analfabeto e consertou o projeto, pondo tudo em letras bem claras ¿ MONTE PLANO. Acontece que a palavra é italiana e é escrita mesmo com o ¿r¿ ...
Paciência!
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NELSON VIANA, MEU PATRONO
WANDERLINO ARRUDA
Escolhi, como patrono da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, um notável homem de letras da nossa região, um regionalista e sério pesquisador de costumes, literato de fôlego, um sentimental homem do sertão, sempre vestido com roupagens de sério trato: Nelson Washington Vianna, o curvelano montesclarense.
Escolhi-o como desejo de marcar de modo definido minha admiração pela obra diretamente ligada às gentes do grande sertão do norte, ao agricultor, ao caboclo, ao vaqueiro, ao freqüentador de feiras, ao fazendeiro, ao contador de"causos", ao tocador de viola, ao solitário das madrugadas e das bocas de noites e aos que, cansados das tarefas do dia, sentavam-se ou se sentam nos calcanhares para ouvir ou falar com a maior sabedoria do mundo. Nelson Vianna, com a sinceridade do cientista, contou muito da esperteza do interiorano de Minas, homo-rusticus ou homo-urbanus, sempre com a alma aberta à criação de tipos, caracteres e personalidades de rara beleza para nossa literatura. Ele despertou um sentido novo de humor, uma figuração de inteligência e perspicácia, um "savoir-vivre" e "savoir-faire" difíceis de se encontrar em outra literatura.
Perscrutador impenitente, incansável olheiro da fraqueza humana, quase libidinoso no modo de ver e interpretar, Nelson Vianna foi imaculadamente o grande repórter de uma vasta reportagem do homem sertanejo desse lado de cá do mundo mineiro, que vem de Curvelo até os Montes Claros. Ele sempre viveu acompanhando vertentes e serrarias, capões de mato e serrados, veredas e gerais, cenários de vida e de literatura tão gratos aos nossos corações. E pena que eu não tenha conhecido tão bem Nelson Vianna como o conheceu Cândido Canela, Olyntho da Silveira, Vianna de Góes, como o estudou Haroldo Lívio. Homem distante, severo, de poucos amigos, não dava muita oportunidade aos mais novos para conversas e troca de idéias.
Lembro-me de ter conversado com Nelson Vianna apenas uma vez, no vestíbulo da casa de Osmani Barbosa. Estava eu naquela ocasião interessado em fazer uma pesquisa sobre a literatura do Grande Sertão, exatamente no pedaço de terra que fica entre o centro de Minas, a Serra das Araras e o Carinhanha. Precisava de dados comparativos de dois estilos que dissessem diretamente sobre o elemento humano, fruto teórico da paisagem sofrida, ponto de ligação entre a natureza e a vida do passado e do presente. Propus, então, a ele uma entrevista, do homem e do literato, para que eu pudesse, depois, compará-lo com Guimarães Rosa, o outro lado do trato com o comportamento sertanejo. Nelson Vianna espantou-se, olhou-me de frente, franziu o semblante, parece até que tremeu¿ e, considerou minha atitude uma audácia: fazer comparação dele com Guimarães Rosa não tinha propósito, não havia paralelos; Guimarães, o grande escritor, ele um joão-ninguém. É isso o que pensava. Não, não era possível, era um absurdo, não me daria entrevista alguma. Insisti, mostrei que a diferença de estilos não desmanchava a beleza nem a precisão descritivas da relação humana e humanística do tema e que, embora divergentes, eram um só. De nada adiantou, foi irredutível, iria pensar, poderia ser ou não ser... mais para o não ser.
O encontro de frente e direto na casa de Osmani Barbosa com Nelson Vianna foi o último, como também estava sendo o primeiro. Mudou-se o escritor, logo em seguida, para Belo Horizonte. Quando o vi de novo, foi andando lá pelo quarteirão montes-clarense das ruasTupis e Rio de Janeiro, mas aparentemente distraído e, senhor ou não da vida, nunca me reconheceu. E até parece que a Montes Claros nunca mais voltou. Coisas que só o Haroldo Lívio deve entender...
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NA VENDA DO MEU PAI
WANDERLINO ARRUDA
Luiz de Paula Ferreira é um milagre. Tudo na sua vida deu certo. Tudo: sonhos e realidade, jeito de ser e de viver. Comportamentos, atitudes, hábitos, numa receita sábia, e manhosamente aviada desde os velhos tempos de Roma: ¿Não basta ser, é preciso parecer¿. Luiz ¿ em todos os decênios que marcaram a idade do menino, do jovem e do adulto ¿ foi e pareceu inteligente, intensa e fervorosamente, quase por um dever de fé e destinação. Querendo - quem sabe - até sem querer, jamais pôde fugir das luzes de uma generalizada admiração de próximos e distantes. Conservador e revolucionário, sempre teve como medida o comedimento, coisas de antigo PSD, que não fazia reunião sem antes de tudo estar resolvido. Luiz sabe ver e antever, vestido e revestido de inigualável poder de avaliação. Sabido, tranqüilo e limpinho como um gato, no dizer do nosso saudoso João Valle Maurício.
Neste livro ¿ conjunto fantástico de retalhos intensamente coloridos da vida interiorana brasileira do Século XX ¿ Luiz de Paula é narrador e personagem, iluminador e fotógrafo, ao mesmo tempo retratista e retratado em cenas que ele próprio sempre se inseriu. Dono de poder material e imaterial, agora produz um texto mais do que vivo - do seu e do nosso agrado ¿ encarnando e reencarnando uma tradição oral de esperteza, que muito será discutida no futuro, quando as máquinas e os chips ocuparem com primazia a diretiva humana. Os relatos, as crônicas, a prosa poética, até os contos que ele - por segurança e sabedoria, diz de ficção - representam o que a Literatura pode ter de melhor na fixação de imagens e vivências, conteúdo importante porque só possível aos que o viveram com entusiasmo.
Li, reli e tresli as três divisões ¿ ¿NA VENDA DO MEU PAI¿ , ¿SANFONA DE OITO BAIXOS¿ e ¿ALGUMAS HISTÓRIAS¿. E quando lia e revivia cenas da vida de menino do interior, testemunha real e virtual de tudo que acontece, pensei calculadamente em registrar neste Prefácio dezenas ou centenas de nomes de pessoas e de lugares, antecipando para o leitor o cheiro e o gosto de todas as acontecências, assim como as cores e a sensação táctil de cada paisagem.
Um pouco mais novo que Luiz, tendo vivido pelo lado de dentro e de fora de uma casa comercial - ouvinte e visualizador atento - bem sei do quanto o relar o umbigo no balcão valeu para nós. Ali nada passava despercebido no universo das pessoas e das coisas, seja ouvindo uma sanfona de oito baixos, seja engraxando sapatos ou controlando os movimentos sinuosos dos bêbedos. Era a vida imitando a vida, para criar memórias que só o livro pode fixar. Com este livro, Luiz eterniza Maria Velha, Maria Suruca, Mariazinha Palpitosa, o lambe-lambe Vitorino, Chico Boa Palavra, João Velho, João Raposa, Gregório Barba à-toa, além ¿ é claro ¿ um amplo universo de situações que marcam a malícia e a esperteza do dia-a-dia de Várzea da Palma, de Montes Claros e deste pedacinho gostoso do sertão mineiro. Resumindo, um musicar e um cantarolar de lembranças que só um narrador bom como o Luiz consegue pôr no papel.
Plurissignificativa, a Literatura faz com que certas personagens e situações ofereçam liberdade na interpretação dos textos, poucas vezes os mostrando imutáveis ou ensinando uma aceitação pura e simples. As palavras e o encadeamento de palavras sugerem visões que nunca pertencem somente àqueles que as escrevem. Uma vez materializado, o texto pertence mais ao leitor, à sua forma de pensar e agir, influenciado pela experiência lingüística e pela cultura de cada um. Assim, ¿NA VENDA DE MEU PAI¿ vem para marcar época, com lembranças e vontades mais do que gratas para quem as viveu e para quem gostaria de as ter vivido. Aqui, não há fotos em preto e branco, não há figuras esmaecidas ou distantes: tudo é colorido, cada movimento tem uma surpresa como se estivesse acontecendo e sendo vivido agora. Luiz é um cinegrafista sortudo ¿ pode-se dizer com efeito Kirlian ¿ que além de gravar o visível e tangível, consegue divisar nuances que só aos privilegiados Deus permite contemplar. Bom para ele, melhor pra nós!
Purista corajoso do idioma, Luiz de Paula Ferreira conduz o leitor à excelência da fala brasileira, com todo o condão de quem sabe fazer mágica com a inteligência e o gosto do verdadeiro contador de causos. Alegre, otimista, sinceramente claro nos conceitos, oferece-nos o que há de melhor na vida sua e das outras personagens. Vale realmente ser lido. No meu ponto vista ¿ e aqui não vale a amizade que nos une ¿ ¿NA VENDA DE MEU PAI¿ é o melhor de todos os registros regionais que a argúcia literária impõe a um leitor interessado. No que toca à missão do homem no viver e conviver, no amar e no sonhar, Luiz é um cronista indubitavelmente universal.
Experimente-o como quem sabe sugar o sumo doce de uma jabuticaba bem madurinha, o andar de bicicleta em tempo de Primavera e o ver e ouvir o sapateado de um cantador de coco.
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MONTES CLAROS EM TEMPO DE ARTE
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A fundação estética ¿ segundo o nosso conterrâneo Cyro dos Anjos ¿ surge como uma das atividades primordiais do homem, e, provocada por forças desconhecidas que nos movem, ela se exerce, em grau diverso, levando alguns mais dotados a encaminhar-se para a criação. Em qualquer tempo e em qualquer parte, o desejo de procurar ou despertar a sensação artística, é depois da fome e do amor, o instinto que mais se afirma na espécie humana. Sempre presente, sempre atuante, ele é uma espécie de fascinação do inapreensível, da vontade de arrancar as formas do mundo, a que o homem está sujeito, para as transportar ao mesmo mundo que o homem governa ou com que sonha. Cada obra de arte construída é a recuperação da totalidade do ser, é o encontro do sentimento eterno de grandeza imerso em nosso mundo pessoal. Há em nós o constante desejo de cooperar com a vida. Enquanto uns cuidam de viver, é bom que outros, como pensou Bergson, cuidem de sonhar ou de filosofar: estes que são os artistas, pessoas de função fabulosa, distinta da imaginação.
É com esse cuidar de viver, com essa busca de sentir, que tento focalizar um momento da vida de Montes Claros, uma cidade instintivamente criadora, desde os velhos tempos da iluminação a querosene, das ruas de cima e das ruas de baixo, quando a lua era mais bonita, porque admirada, e dava uma suave toque de perfeito colorido nas noites de serenata, de jogos de prendas e de cirandas. Antigos viajantes já ficavam entusiasmados com a habilidade do viver montes-clarense, entremeado de trabalho e de alegria, através de manifestações do sentimento das emoções de uma espontânea busca do sublime e do espiritual, seja nos saraus familiares, seja na rua ou antigos balcões de lojas e armazéns. A poesia, a crônica para o pequeno jornal, a declaração e a oratória, as modinhas dos salões, tudo constituída boa semente para a eclosão futura de muitos caminhos no campo das artes.
Terra de muito trabalho, de iniciativas, marcada pela independência e pela ousadia, Montes Claros é também a cidade dos sonhos, centro de um desejo insaciável de reencontro do real e do irreal, uma eterna enamorada da fantasia, faceira, apaixonada, humilde, nostálgica e, sobretudo, consciente na solidariedade que nunca deixa faltar. O aboio dos vaqueiros, o cantarolar dos viajantes de tropas, o batuque das festas de reis ¿ tudo já era prenúncio de uma amálgama de manifestações folclóricas, hoje ricas e enriquecedoras e de que tanto nos envaidecemos diante dos aplausos das gentes cultas que nos visitam ou que têm visto nossos artistas quando em excursões.
De alguns anos para cá, grupos de serestas, conjuntos como o Banzé, bandas, toda uma extensa gama de atividades artísticas são atestados emocionantes da nossa participação no verdadeiro valor da vida brasileira, uma fazer e despertar de sentimentos regionais e nacionais da mais alta expressão. O que era apenas familiar ou de grupos sociais, ganhou ares de organização definitiva o cenário artístico, despertando vocações, cooperando com as inteligências e libertando o amor à beleza da vida.
Montes Claros transformou-se numa amante das artes e, hoje, inúmeras escolas, como um sincero cadinho de técnicas, sensibilidade e intuição, no espaço e no tempo, buscam nobres aspirações de grandeza estética, floração de esplendores e de sublimação...
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MONTES CLAROS E HERMES DE PAULA
WANDERLINO ARRUDA
Montes Claros e Hermes de Paula, suas histórias, suas gentes e seus costumes, que formidável grande amor! Como sabe esta cidade gostar deste homem e como pode este homem amar tão carinhosamente esta cidade! Para Montes Claros, Hermes é o filho, o irmão, o companheiro, o amante, a extremosa dedicação do pulsar constante em seu favor o bem-amado, o sempre amado. Em toda parte, Hermes de Paula: na medicina, na seresta, na literatura, nos serviços comunitários, na sociedade, na história, no folclore, em tudo. Para Hermes, Montes Claros a melhor cidade do mundo e o encontro sagrado e existencial, plenitude de beleza, de bem-entender, lembrança passado-presente, vivência plena em ritmo de eternidade.
Perfeitamente definíveis o homem e o historiador, pois, Hermes de Paula em Montes Claros nasceu e se criou, filho de Basílio de Paula, nome de rua, e de D. Joaquina Mendonça, nome de gene que espalhou família por um mundão sem porteiras. Aqui estudado, aqui casado, aqui vivido. Se saiu de Montes Claros por algum tempo, foi para fazer cursos no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, e no Granbery, em Juiz de Fora. Dos anos morados em Niterói, para a Faculdade de Medicina e para o estágio científico, para cá voltou correndo logo depois de sabedor de tudo sobre cobras, soroterapia e microbiologia, aprendido com o papa do ofidismo, Vital Brasil, quase seu sogro.
Hermes de Paula, um homem de sorte, formado pela inteligência, mas também por efeito de um prêmio de loteria, sem o que talvez não pudesse ter aqui saído ou à Faculdade não ter chegado. Hermes de Paula foi sempre um ativista da cultura, ligado, ligadão ao povo de sua terra. Sanitarista do Estado, chefe do Posto de Saúde, diretor da Santa Casa, do Instituto Antônio Teixeira de Carvalho, da Sociedade de Proteção à Infância. Fundador da regional da Associação Médica, idealizador do Pentáurea Clube, do Grupo de Serestas João Chaves, hoje nacionalmente famoso, também ajudou na criação do Colégio São José, do Rotary Clube Montes Claros, do Elos Club, da Fundação Norte Mineira de Ensino Superior, da Faculdade de Medicina, da Academia de Letras, do Cassimiro de Abreu e do Ateneu. Professor de muitas escolas, professor de todas as escolas, membro da Comissão Mineira de Folclore, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, da Sociedade Brasileira de Folclore, da Sociedade Sul Americana de Genealogia.
Foi Hermes de Paula quem fez a igrejinha do Rosário, a nau catarineta da Praça Portugal. Foi Hermes quem inspirou a construção da igreja do Morro do Frade, aquela que Pedro Santos mandou fazer virada para a fábrica de cimento. E não seria por causa de Hermes de Paula que ainda existem catopês, marujos, caboclinhos, canjica, paçoca, festa de São Pedro, fogueira, quentão, licor de pequi, folclore, um tudo de tradição de nossa Montes Claros? Será que sem ele nossa memória poluída e industrial já não teria enterrado todos os velhos costumes?
Um ótimo documento do seu trabalho e da sua vida, um perfeito e representativo retrato é o livro Montes Claros, Sua História, Sua Gente e Seus Costumes, que é mais do que tudo Hermes de Paula, Montes Claros e bom povo que a construiu. Lançado em 1957, quando o centenário da cidade, que ele ¿inventou¿, o livro de Hermes de Paula tem sido uma espécie de bíblia muito sagrada para quantos estudam nossa história e nossas estórias e desejam saber os segredos do nosso progresso.
Ler o livro de Hermes de Paula, além de aumentar grandemente nossos conhecimentos, é, sem dúvida, uma tirada de doces férias numa sentimental viagem pelo passado. Uma doçura para o coração!
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MONTES CLAROS -ARTE E CULTURA
WANDERLINO ARRUDA
É Montes Claros realmente uma cidade de arte e cultura? O que tem sido feito nos últimos dez anos pelos artistas, pelos intelectuais e pelo poder público no sentido de aumentar a produção de arte? Existe trabalho que possa ser considerado sério? Há liberdade ou há manipulação política nos setores da cultura? Afinal, quais são as perspectivas para o futuro, nas proximidades do século XXI e do III milênio? Muitas são as perguntas, especulações de todo tipo podem ser formuladas, considerações de ordem erudita ou popular podem ser apresentadas. Muito espaço pode ser gasto em cogitações, porque o assunto é complexo e merece estudo minucioso. Nada mais verdadeiro, no momento, do que a necessidade de pensar e repensar, tudo tecnicamente, sem paixões, sem interesses pessoais, sem a demagogia que os políticos profissionais quiseram ou ainda podem querer impor, com exploração do povo, que, facilmente, se deixa iludir.
A primeira coisa que deve ser feita, a meu ver, é acabar com a bobagem de divisão entre cultura erudita e cultura popular, porque tudo é a mesma coisa. A manifestação de arte e inteligência não escolhe origens, pode vir de qualquer parte da cidade ou do município. O que existe é interesse maior ou menor de estudos, de pesquisas, de trabalho de apresentação de resultados. De nada adianta querer sufocar as chamadas elites culturais, com pretextos de popularismos bestas e interesseiros no sentido eleitoral. Arte e cultura nada têm a ver com partidos políticos. Pertencem, sim, à sociedade como um todo. O apoio, ou melhor, a liberdade de ação deve ser oferecida de modo amplo e irrestrito a todos os habitantes, e em todos os setores: música, pintura, literatura, teatro, desenho, escultura, dança, etc., que a inventiva humana não tem limites. Que o diga o mestre Hamilton Trindade, que já lutou tanto no assunto.
Agora, que o Centro Cultural Hermes de Paula volta atividades de forma global, depois de completamente reformado pela secretária Antonieta Silva e Silvério, poderá ser, de novo, uma fonte de programações que resultem movimentação artística verdadeiramente ampla, sem distinções de segmentação social. Não quer dizer que seja o Centro Cultural o único espaço de cultura, pois muitos outros existem, mas é lá ¿ pode-se considerar ¿ uma vertente de trabalho, o pólo principal, capaz de coordenar, incentivar, produzir, divulgar, distribuir, programar, premiar, provocar a criação constante. Daqui para frente, muito pode ser esperado, principalmente porque Antonieta Silvério trabalha com critérios técnicos e competência comprovada, sem ranço político de qualquer espécie e com trânsito livre em todo e qualquer setor da cidade. Mais do que tudo: com interesse de artista, que é.
Existe em Montes Claros de antes e de depois do Conservatório Lorenzo Fernandes, com D. Marina e sua equipe a marcar a tomada de consciência nos valores artísticos, assim como existiu Hermes de Paula para dar nascimento ao interesse pela cultura e pela história, ambos construindo um alicerce que político nenhum conseguirá destruir por mais demagogo que seja. Já passou o tempo da chamada inteligência do boi. Agora, Montes Claros já pode respirar ares mais novos na cultura e no saber. Aí estão entidades setorizadas ou não que muito podem produzir, cabendo o papel maior possivelmente ao Lorenzo Fernandes e a FACEART, porque trabalham de forma didática, com horários marcados tendo à frente professoras de maior credibilidade: Lígia Braga e Clarisse Sarmento. Fica faltando ¿ e com urgência ¿ a reestruturação da Feira de Artes ¿ quem sabe ¿ na Praça Doutor Chaves, o único local que ela funcionou o contento e com presenças de público mais interessado e responsável, certo para prestigiar os artistas.
Uma sugestão para Antonieta Silva e Silvério: convoque imediatamente todas as instituições de cultura da cidade, principalmente a Imprensa, para uma reunião ou reuniões projetos, decisões e compromissos. Façamos um planejamento geral e que sejam distribuídas as responsabilidades de trabalho, cada qual com o que lhe couber e for apropriado. Aí estão a Academia Montesclarense de Letras, a Sociedade das Amigas da Cultura, as associações de artistas Plásticas do Teatro, Repentistas, Artesãos, Poetas Populares, os grupos de Serestas, o Banze, os produtores independentes e tantas outras. Considerem-se como presenças imprescindíveis os representantes das páginas culturais da imprensa, da Reitoria, do Departamento de Letras da FAFIL, das escolas de Artes, das galerias da Caixa Econômica Federal e MIT (Ivana Tupinambá), do setor de cultura do Automóvel Clube. Pontos importantes a serem discutidos: a construção do Teatro Municipal e a criação do Museu de Montes Claros.
Há muito que fazer. Há muito mais para realizar. Mãos à obra.
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MINHA MESTRA MARY FIGUEIREDO
WANDERLINO ARRUDA
Maria da Consolação, Mary Figueiredo, Mary Figueiredo Cowen é para mim a moça mais importante do mundo. Sempre eu disse, desde que conheci Mary, que ela poderia ser professora de francês na França e de inglês n Inglaterra. Com a mesma eficiência que é professora português-brasileiro no Brasil. Se Algum dia Mary resolver ensinar japonês no Japão, resolver, estudar alguns meses e ¿ pimba ¿ falará o melhor japonês e o melhor chinês! Mary Figueiredo é fogo! Uma garota inteligente desde que nasceu e de muito antes do nascimento. Inteligência eterna, audível e visível, destas que avassalam os séculos, contribuindo para a melhoria da inteligência dos outros! Inteligência. Uma pessoa muito feliz e que muito sabe o que quer.
Mary é sempre minha querida professora de francês e de literatura francesa, minha cara professora para toda sabedoria que existe no mundo antigo e moderno. Sempre aprendi muito com Mary, assim como um número incontável de outros alunos seus daqui do sertão de Montes Claros e de muitas outras partes do planeta Terra. Mary Figueiredo Cowen é um sucesso como mestra e como ente humano. Alguém assim um tanto especial, que só de tempo em tempo pode aparecer na historia. Acho que Mary pode ser diretora da Universidade do Cairo, programadora da NASA, chefe da Base de Bailonur, presidente da ONU, governadora de Minas, leitora notável da Universidade de Londres. Ou pode ser simplesmente uma perita em churrasco na gostosa mansão de Baby e João Carlos Sobreira. Presidente do Banco do Brasil acho que Mary possa ser, porque presidir o Brasil qualquer um pode estar fazendo. Para Mary isso seria barbada, fichinha, nem dava para ficar no sério.
Hoje que esta Academia de Letras faz uma homenagem a Mary, numa hora que ¿ mercê de Deus ¿ devo estar na cidade do Salvador, Bahia de Todos os Santos, quase em início de tarefa, fico triste em não poder estar com os seus amigos neste momento de abraça-la. Se aqui estivesse, ficaria de longe, olhando, admirado em êxtase, sua gratificante fase de beleza interior e exterior. Até parece que o clima de Londres e os tratos do Bob Cowen só fizeram bem a essa charmosa mulher! Parece também que até disso a sua inteligência sabe aproveitar e assumir. Mary é sabida até para se apaixonar. Sabe que o amor faz bem! Mas como a minha cunhada Lary Cunha diz que quando a gente quer elogiar uma mulher o bom é nunca adjetiva-la de inteligente ¿ devendo-se, por outro lado ¿ dizer que ela apenas é bonita, eu digo, então, para todo mundo ouvir, saber e concordar: MARY FIGUEIREDO COWEN é linda, formosa, lindona como ela só! Uma estrela de sexta grandeza!
Se eu fosse o Rei de Roma, no tempo que Roma mandava, fazia e desfazia, o que eu iria fazer com MARY era coroa-la rainha da Inglaterra. Ou então princesa do Brasil! Se ela não aceitasse a minha homenagem, não tinha nem core-coré, nomearia, nomeá-la-ia, à força, episcopesa de Caruaru ou prefeita de Coração de Jesus. Não dando certo ainda, faria dela a mais importante coronela do exército de Katmandu!
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